Energia que vem do céu

Micro usina hidrelétrica de redemoinho produz energia para até 60 casas
04/04/2018
O mercado de energia eólica no país supera 500 parques: bons ventos sopram trilhando o caminho adiante
06/04/2018

Energia que vem do céu

Por Fabio Rodrigues* – Tem sido uma daquelas histórias “apesar da crise” que vira e mexe dão as caras no noticiário. Nos últimos anos, as fontes de energia solar fotovoltaica (produzida a partir do sol) e eólica (a partir do vento) nadaram contra a correnteza e registraram avanços de encher os olhos.

Apenas em 2017, a capacidade instalada em energia eólica cresceu 28,1%, atingindo a marca de 12,8 gigawatts (GW) distribuídos entre pouco mais de 500 parques de geração. É o equivalente a 8,1% de toda capacidade do Brasil. Os dados são da Empresa de Pesquisa Energética (EPE), órgão do governo responsável por estudos sobre o setor energético.

No caso da energia solar, o salto foi ainda mais impressionante: 4.470% em apenas um ano. No começo de 2017, eram somente 21 megawatts, que, na virada do ano, estavam perto do primeiro gigawatt. Esse número, porém, deve ser visto com moderação: a energia solar continua na lanterna do sistema nacional de geração, com apenas 0,6% da potência instalada no Brasil.

Dos grandes parques…

Mais de metade do salto da energia solar veio de apenas dois empreendimentos, inaugurados em setembro:
– a usina de Nova Olinda, localizada no município de Ribeira do Piauí (PI);
– e a usina de Ituverava, que fica em Tabocas do Brejo Velho (BA)
Juntas, elas têm potência de 546 MW, o suficiente para abastecer quase 570 mil casas. Construídas e operadas pelo grupo italiano Enel, que investiu US$ 700 milhões nos projetos, são os dois maiores complexos de seu tipo na América do Sul.

…aos pequenos lares…
Além dos projetos de grande porte, a energia solar também vem se popularizando nas casas, como uma opção para diminuir a conta de luz.

Segundo a Associação Brasileira de Energia Solar Fotovoltaica (ABSOLAR), na virada de 2016, o Brasil contava com 7.000 unidades instaladas. Um ano mais tarde, eram mais de 16 mil.

Um dos motivos que ajudou foi a queda no custo dos equipamentos. Segundo o Atlas de Energia Solar, o preço caiu 90% (os “módulos” por watt instalado passaram de US$ 3,9 para US$ 0,39).
Natureza favorece o Brasil

É até uma vocação natural para o Brasil. Segundo o Atlas do Potencial Eólico Brasileiro de 2001, seria possível instalar até 143,5 GW em geradores de energia eólica no país.

Para ter uma ideia do que isso representa, hoje o país é capaz de produzir (incluindo as hidrelétricas) cerca de 150,3 GW, segundo o Balanço Energético Nacional de 2017. Ou seja: seria possível praticamente dobrar esse número só com vento.

Vento rápido e constante

Nossos ventos se diferenciam não somente por sua velocidade, mas também por sua regularidade incomum. Ventos constantes aumentam o rendimento dos aerogeradores.

Essa é uma relação expressa pelo chamado “fator capacidade”, que, grosso modo, diz o percentual de tempo em que os equipamentos conseguem gerar eletricidade. Enquanto a média mundial é de 25%, no Brasil chega a 50%.

Sol a pino

Em termos de energia solar, o país também não faz feio.

A edição mais recente do Atlas Brasileiro de Energia Solar informa, por exemplo, que no local menos ensolarado do Brasil é possível gerar mais eletricidade do que no ponto mais privilegiado da Alemanha –terceiro maior produtor global, atrás do Japão e da China.

Essa capacidade varia de uma região para outro do Brasil. O “filé mignon” abrange o interior do Nordeste e o norte de Minas Gerais (no mapa, é a região de cor laranja mais intensa).

Renda e emprego no sertão

Pequenos agricultores do Nordeste descobriram no vento uma inesperada e bem-vinda fonte de renda complementar.

Israel Joaquim de Carvalho, 34.
Caçula de uma família de três homens, o agricultor recebeu seu pedaço de terra do pai. Há quase cinco anos, tem perto de casa duas torres para gerar energia eólica e ganha cerca de R$ 3.500 por mês.

Com o dinheiro, diz que espera poder ficar mais próximos dos pais, que moram longe e já estão com idade avançada, e dar uma educação melhor para os três filhos. “[Primeiro] vai beneficiar quem tem aerogerador, mas, indiretamente, vai beneficiar as outras pessoas também”. Apesar da renda extra, diz que planeja continuar plantando mandioca.

Maria Otília de Oliveira, 71.
Agricultora e agente de saúde, ela cuida da casa e toma conta da mãe e de duas sobrinhas. Arrenda terra há quase 5 anos. Como os equipamentos precisaram ficar no local onde estava sua casa, recebeu uma indenização e construiu uma casa nova, maior e mais confortável.

“No começo eu passei muita raiva [por causa da mudança de casa], mas melhorou a morada. Até a recepção do celular melhorou [risos]“. O aluguel da terra para instalar três turbinas rende R$ 5.000 por mês. Com o dinheiro, diz que quer incentivar as sobrinhas nos estudos.

Média de R$ 2.500 por família a cada mês

Pelas contas da Associação Brasileira de Energia Eólica (ABEEólica), já são mais de 4.000 famílias que arrendam (alugam) parte de suas terras para a instalação de geradores de energia eólica.
Em troca, essas famílias ganham uma parte das receitas geradas com a venda da eletricidade. A bolada se aproxima dos R$ 10 milhões, o que dá uma média de R$ 2.500 por família a cada mês.
Como a instalação dos geradores não chega a inviabilizar a produção agropecuária, os produtores rurais podem continuar suas atividades normalmente.

Ir aonde o melhor vento está

Os arrendamentos não são caridade. Eles fazem sentido econômico. Uma companhia eólica tem que ir, literalmente, onde o vento a leva.

“A gente depende do melhor vento. É isso o que nos dá competitividade”, diz Lucas Araripe, diretor de projetos da empresa Casa dos Ventos (CDV), uma das principais desenvolvedoras de projetos de geração eólica no mercado.

Com projetos instalados em 10 municípios distribuídos entre Bahia, Ceará, Pernambuco, Piauí e Rio Grande do Norte, a Casa dos Ventos vem lidando com a realidade dos sertanejos há mais de uma década.

Segundo Araripe, comprar as terras até seria uma possibilidade, mas nem sempre é uma alternativa prática convencer as pessoas que estão instaladas ali há tanto tempo. “Comprar acaba ficando muito complexo, então a gente analisa caso a caso e tenta ir na direção do que os proprietários querem fazer.”

Renda que movimenta o comércio das cidades

As hélices que geram energia a partir dos ventos estão transformando a paisagem do semiárido brasileiro e a realidade de alguns dos rincões mais carentes do país.

Segundo Lucas Araripe, diretor da empresa Casa dos Ventos, o arrendamento acaba sendo a principal renda para muitas famílias. E não afeta só aqueles que arrendam suas terras.

O dinheiro não é o único benefício. As propriedades precisam estar com a documentação em dia antes de poder fechar os contratos de arrendamento. Por isso, é feito todo um trabalho preliminar de regularização.

Não se pode ignorar também o efeito dos empregos gerados. Na região da Chapada do Araripe, no Piauí, a empresa Casa dos Ventos instalou seis complexos eólicos, o que atraiu novos negócios.

“Na operação temos 20 pessoas, mas também temos fabricantes de peças que se instalaram para fornecer equipamento e serviços. Isso movimenta alimentação, hotelaria, aluguel de equipamentos etc.”, diz Araripe.

Tenha sua própria ‘usina’

Mudanças na regulação introduzidas pela Aneel (Agência Nacional de Energia Elétrica) ajudaram a aproximar o consumidor das energias renováveis. Por exemplo, há dois anos, foi liberado o “autoconsumo remoto”.

Fonte: Ambiente Energia.